Funasa

Funasa: Cólera

 

Aspectos Epidemiológicos

        Até 1991, o Brasil era uma área indene para cólera. Essa pandemia atingiu o continente sul-americano em 1991, estendendo-se para o Brasil. A introdução da cólera em nosso país aconteceu pela selva amazônica. A partir daí, alastrou-se pela região Norte, no ano seguinte atingiu Nordeste e Sudeste através dos eixos rodoviários.

        A chegada da cólera em áreas indenes e com precárias condições de vida, teve características explosivas. Desde então, observou-se a alternância de períodos de silêncio epidemiológico e recrudescimento. Atualmente o comportamento da cólera sugere um padrão endêmico, definido pela ocorrência regular de casos e flutuações cíclicas de maior ou menor gravidade, na dependência de condições locais que favoreçam a circulação do Vibrio cholerae.

 

Agente Etiológico

        Bacilo gram-negativo com flagelo polar, aeróbio ou anaeróbio facultativo.

 

Reservatório

        O reservatório é o homem, além de plantas aquáticas e frutos do mar.

 

Modo de Transmissão

        A transmissão ocorre através da ingestão de água contaminada por fezes e/ou vômitos de doente ou portador. Os alimentos e utensílios podem ser contaminados pela água, pelo manuseio ou por moscas. O ↑ ocorrência de assintomáticos em relação aos doentes torna importante seu papel na cadeia de transmissão da doença. A propagação de pessoa a pessoa, contato direto, é uma via de transmissão menos importante.

 

Período de Incubação

        Na maioria dos casos, 2-3 dias.

 

Período de Transmissibilidade

        Perdura enquanto há eliminação do vibrião nas fezes, o que ocorre, até poucos dias após a cura, ou seja, 20 dias. Vale lembrar a existência de portadores crônicos que eliminam o vibrião por anos.

 

Suscetibilidade e Resistência

        A suscetibilidade é variável e ↑ com fatores que ↓ acidez gástrica (acloridria, gastrectomia, uso de alcalinizantes). A infecção produz anticorpos e confere imunidade por tempo limitado - 6 meses. Em áreas endêmicas, as repetidas infecções tendem a ↑ resposta IgA secretora e produzir constantes estímulos à resposta imunológica, que é capaz de manter a imunidade de longa duração. Esse mecanismo pode explicar a resistência demonstrada pelos adultos naquelas áreas.

 

Distribuição, Morbidade, Mortalidade e Letalidade

        O número de casos é maior no período da seca, quando ↓ volume de água nos reservatórios proporcionando ↑ concentração de vibriões. Em algumas áreas, o conjunto de condições sócio-econômicas favorecem a instalação e rápida disseminação do Vibrio cholerae, como: deficiência do abastecimento de água, ausência de saneamento básico, alta densidade populacional, carências de habitação. Nas áreas epidêmicas, o grupo etário mais atingido é o de ↑ 15 anos. Nas áreas endêmicas a faixa mais jovem é a mais atingida. O sexo masculino é o mais atingido, por sua maior exposição à contaminação.

        Desde a sua introdução no país, os coeficientes de incidência de cólera ↑ progressivamente até 1993. A partir de então, observou-se uma ↓ que se fez mais importante em 1996, sugerindo a endemização da doença. O coeficiente de letalidade em casos graves pode atingir 50% quando não há tratado. Porém, quando este é instituído corretamente, este número cai para ↓ 2%.

 

Aspectos Clínicos

        Doença infecciosa intestinal aguda, causada pela enterotoxina do Vibrio cholerae. Manifesta-se de formas variadas, desde infecções inaparentes até casos graves, com diarréia profusa (menos freqüente). Além da diarréia, podem surgir vômitos, dor abdominal e, nas formas graves, câimbras, desidratação e choque. A febre não é uma manifestação comum. Nos casos graves mais típicos, embora menos freqüentes (↓ 10%), o início é súbito, com diarréia aquosa, abundante e incoercível, com inúmeras dejeções diárias. A diarréia e os vômitos determinam uma extraordinária perda de líquidos, que pode ser da ordem de 1-2 l/hora.

 

Complicações

        As complicações na cólera decorrem da depleção hidrosalina imposta pela diarréia e vômitos e ocorrem mais freqüentemente nos idosos, DM ou cardiopatas. A desidratação não corrigida levará a uma deterioração progressiva da circulação, função renal e balanço hidroeletrolítico, causando choque hipovolêmico, NTA, íleo paralítico, hipocalemia (levando a arritmias), hipoglicemia (com convulsão e coma). As complicações podem ser evitadas com adequada hidratação precoce.

 

Tratamento

Antibioticoterapia

  • Menores de 8 anos: Sulfametoxasol + Trimetoprim

  • Maiores de 8 anos: Tetraciclina

  • Gestantes e Nutrizes: Ampicilina

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    Diagnóstico Laboratorial

            O Vibrio cholerae pode ser isolado a partir da cultura de fezes de doentes ou portadores assintomáticos. O Dx laboratorial da cólera só deve ser utilizado para investigação dos casos suspeitos quando a área é considerada livre de circulação do Vibrio cholerae. Em outra situação deverá ser utilizado o critério clínico-epidemiológico.

     

    Vigilância Epidemiológica

            A experiência internacional tem demonstrado que sua introdução em um país dificilmente pode ser evitada. Entretanto, sua disseminação pode ser controlada quando há saneamento básico e existe um sistema de vigilância epidemiológica das diarréias e de monitorização ambiental que permitam sua detecção precoce. Como não é esse o caso do Brasil, não se pode pensar na erradicação da doença a curto e médio prazo.

            Um ↑ no número de diarréias, numa faixa etária de ↑ 15 anos, é sugestivo de um surto de cólera. Também é importante a realização da monitorização do meio ambiente para a detecção precoce da circulação do Vibrio cholerae. Esse procedimento consiste na coleta periódica do material do meio ambiente e a realização de exame laboratorial. É ainda importante a definição de áreas de maior risco para a entrada e disseminação do vibrião. Para isso chamam atenção localidades ao longo de eixos rodoviários, ferroviários, rios, áreas portuárias.

     

    Notificação

            A cólera é uma DNO ao Ministério da Saúde e à OMS (notificação nacional e internacional).

     

    Investigação Epidemiológica

            A investigação de todos os casos suspeitos e confirmados só é necessária em áreas silenciosas ou por ocasião do início da epidemia. Com a progressão do processo epidêmico e o ↑ número de casos, a investigação epidemiológica completa deve ser feita na medida em que os limites operacionais o permitam, sendo imprescindível a coleta dos dados clínicos e epidemiológicos para caracterização do caso.

     

    Diagnóstico Clínico-Epidemiológico

            É o critério utilizado na avaliação de um caso suspeito no qual são correlacionadas variáveis clínicas e epidemiológicas capazes de definir o Dx sem investigação laboratorial. Deve ser utilizado frente a pacientes com diarréia aquosa, aguda, ↑ 5 anos, em áreas onde há circulação do Vibrio cholerae. Em áreas onde há evidência de circulação do V. cholerae, não se faz necessária a coleta de material para exame de laboratório de todos os suspeitos.

     

    Definição de Caso

            Suspeito: Em áreas sem evidência de circulação do V. cholerae patogênico:

            Suspeito: Em áreas com evidência de circulação do V. cholerae patogênico:

            Confirmado por Laboratório

            Confirmado pelo Critério Clínico-Epidemiológico

     

    Importado

            É o caso em que se pode identificar que a infecção ocorreu em área diferente daquela onde foi Dx ou tratado, ou onde teve a sua evolução. Do ponto de vista da vigilância epidemiológica, o caso importado somente merece ser especificado como tal em áreas de risco silenciosa ou ↓ incidência, pela pouca probabilidade de se contrair a doença nesse local, ou por se tratar de caso índice, que exige uma investigação especial para adoção das medidas de controle.

     

    Portador

            Indivíduos que, sem enfermidade clínica ou com enfermidade subclínica, eliminam o vibrião. São os responsáveis pela introdução da epidemia em área indene e pela manutenção da endemia.

     

    Medidas de Controle

           

            O controle do movimento de pessoas e comércio entre os países não é justificável uma vez que não impede a introdução da cólera num país. É importante ressaltar que as medidas coletivas (cloração da água, melhorias sanitárias) devem ser realizadas sistematicamente, independente da existência ou não de casos.

     

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